Publicado
4 anos atrás|
por
Cássio Lucas

Capa do álbum ‘Toto IV’ (Columbia)
Foi somente há pouquíssimo tempo que descobri, pasmo, que a base rítmica da canção Rosanna, do Toto, tem o DNA de ninguém menos que o grande Bo Diddley, compositor, cantor e guitarrista que fazia sucesso principalmente a partir da segunda metade da década de 1950, quando o rock and roll despontava para se tornar um fenômeno musical de proporções mundiais. Eu — que me considero razoavelmente bom em reconhecer batidas e riffs de músicas — nunca havia percebido a “malandragem” de um certo baterista.
Comecemos, é claro, por Diddley. O músico é considerado hoje um pioneiro do rock e, à época, punha na mistura fortes elementos de R&B, tendo como interessante diferencial ritmos africanos. Em 1955, ele gravou uma canção chamada, adivinhe, Bo Diddley, cuja batida sincopada é muito característica. Tanto que hoje a levada é conhecida como “Bo Diddley Shuffle”. Pam-pam-pam pam-pam. Bateu, reconheceu.
Ouça a batida que virou assinatura de Bo Diddley:
Um ano mais tarde, a canção com o nome do autor seria regravada por outro ícone dos primórdios do rock. Sim, Buddy Holly fez seu cover em 1956, que, no entanto, só foi lançado em 1963, postumamente, já que Holly perderia a vida tragicamente em 1959. E, se a batida desenvolvida por Diddley chamara a atenção desse expoente do rock, chamaria a de outros.
Bo Diddley por Buddy Holly:
Assim, em 1973 — portanto 10 anos após o lançamento da releitura de Buddy — outro músico lançaria uma canção intitulada Panic in Detroit. Tratava-se de David Bowie, artista que dispensa comentários quanto à sua importância para o universo do pop-rock. A batida está ali. Em essência, é Bo Diddley na veia.
O “Camaleão do Rock” também foi contagiado pelo “Bo Diddley Shuffle”:

Se avançarmos quase uma década para o futuro, teremos a canção Rosanna, do grupo Toto, lançada em 31 de março de 1982, no lendário álbum Toto IV. Composta e letrada por David Paich — também presente nos vocais de fundo, nos teclados e como arranjador –, a música foi inspirada em um amor da adolescência, dos tempos de ensino médio.
Nos vocais principais, temos Steve Lukather, guitarrista, que entoa os primeiros versos, para logo dar espaço à voz de Bobby Kimball, já entrando de sola nas notas mais altas que encaminham ao refrão. Kimball, aliás, convocado pelo Toto à época, é um dos vocalistas mais emblemáticos do mundo das bandas de rock daquele período entre os anos 70 e 80.
Uma verdadeira alquimia rítmica resultou em um dos maiores hits do Toto:
Mas onde entra mesmo a batida do mestre Diddley nesse ponto da história?
Bem, o excelente baterista do Toto, Jeff Porcaro —lamentavelmente já falecido — explica em um vídeo que “roubou” ideias de diferentes artistas.
Uma delas foi a batida de Home at Last, de 1977, canção interpretada por Steely Dan, com a batera sofisticada de Bernard Purdie.
A baqueta sofisticada de Bernard Purdie foi uma das referências para o baterista do Toto:
Outra foi a levada de Fool in the Rain, lançada em 1979 pela banda Led Zeppelin, com a bateria contagiante de John Bonham.

A técnica irresistível do batera John Bonham foi outro ingrediente para a “química” de Jeff Porcaro:
Mas o alicerce ou, melhor dizendo, a “alma” do ritmo presente em Rosanna é aquela batida tão característica de Bo Diddley. Ao menos basicamente, pois Jeff Porcaro incluiu alguns incrementos, dando um toque pessoal àquele sincopado irresistível criado pelo mestre Diddley. A essa mistura Jeff deu o nome de “Rosanna Shuffle”.
No referido vídeo — que hoje em dia pode ser visto no YouTube –, depois de explicar essa alquimia rítmica, o baterista do Toto dá uma palinha, executando a hoje tão conhecida introdução de Rosanna, ao que nosso cérebro já é ativado e responde, passando a imaginar os instrumentos que entram em seguida, nessa que é, sem dúvida, uma das melhores canções do grupo.
Jeff Porcaro explica e demonstra, de forma didática, o caminho para “Rosanna Shuffle”:
Uma nota final sobre a composição de Paich. Apesar de surgir de uma inspiração pessoal, o compositor, atento a acontecimentos e nomes reais para incorporar ao seu trabalho de criação, resolveu batizar a canção com o nome da atriz Rosanna Arquette, cuja carreira estava em ascensão no início dos incríveis anos 80, com um pitoresco detalhe: ela estava namorando Steve Porcaro, irmão de Jeff e tecladista do Toto.
Rosanna Arquette foi a musa inspiradora para o título da canção:

Copyright © 2020 Rosanna Arquette
Por fim, se você já assistiu ao clássico filme La Bamba, de 1987 — que retrata a carreira meteórica de outro astro dos primórdios do rock and roll — , não venha me dizer que nunca ouviu falar de Bo Diddley, pois uma música dele é executada já nos créditos iniciais da película, quando um certo personagem bad boy desce por uma estrada de asfalto com sua motocicleta customizada. Enfim, você já conhecia o bom e velho Bo. Só não sabia.

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