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Quatro ciclos no escuro deserto do céu

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Quatro ciclos no escuro deserto do céu

Eu devia ter uns 10 anos de idade. O que me lembro é de estar andando de bicicleta e ouvindo, provavelmente num walkman, uma das músicas que eu mais gostava naquela época. Fim dos anos 1980. O rock nacional ainda despontava com força.

Naquela cena, uma banda, em particular, me agradava, com um nome um pouco estranho –como era relativamente comum às bandas nacionais daquele período. Nem me lembro ao certo qual foi a primeira vez que ouvi Nenhum de Nós, grupo com DNA brasileiro e gaúcho.

Havia dois sucessos estourados deles naquele momento. Camila, Camila (1987) e Astronauta de Mármore (1989). E é justamente esta segunda que eu escutava no walkman do qual falei. Eu gostava da ideia de pensar que havia uma espécie de trilha sonora pra vida.

'Astronauta de Mármore' foi um grande sucesso do Nenhum de Nós (Divulgação/Reprodução)

‘Astronauta de Mármore’ foi um grande sucesso do Nenhum de Nós (Divulgação/Reprodução)

Gostava muito do som da Nenhum de Nós, embora eu não entendesse muito – ou quase nada – das letras. “A lua inteira agora é um manto negro / O fim das vozes no meu rádio”. Aquilo evocava algo melancólico que me agradava.

Um dos versos, para mim dos mais misteriosos, era “São quatro ciclos no escuro deserto do céu”. Eu o ligava às fases da Lua. Apenas há pouco tempo entendi melhor, vendo uma entrevista do vocalista Thedy Corrêa para o já saudoso Rodrigo Rodrigues.

Tem a ver com o caminho que as estações espaciais percorrem.

Quando uma estação passa por “trás da Lua” – falando em relação à Terra – a espaçonave fica sem contato nenhum com o nosso planeta, à sombra do nosso satélite natural. Então, finalmente, 30 anos depois, compreendi melhor a inspiração para aquele verso.

Na mesma entrevista, o vocalista da Nenhum de Nós explica que, à época da gravação do segundo álbum da banda, Cardume (1989), durante os ensaios, eles tocaram Starman, do David Bowie, para descontrair. O produtor Reinaldo Barriga ouviu e deu a ideia de fazer uma versão em português.

Fãs de Bowie, os músicos ficaram em dúvida. Mas decidiram aceitar a sugestão do produtor e criaram uma “versão de fã”, segundo as palavras do próprio Thedy. E não deu outra. A canção se tornou um sucesso e é, ao lado de Camila, Camila, dos temas mais populares da banda até hoje.

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David Bowie apresentando 'Starman' no Top Of The Pops em 1972 (Divulgação/Reprodução)

David Bowie apresentando ‘Starman’ no Top Of The Pops em 1972 (Divulgação/Reprodução)

E eu já havia levado um bom tempo para descobrir que Astronauta de Mármore era uma versão dessa banda gaúcha para Starman do David Bowie, lançada em 28 de abril de 1972. Há mais de 50 anos, portanto.

Isso – somado ao fato de ter assistido à entrevista do Thedy para o Rodrigo – fez com que tudo fizesse mais sentido na minha cabeça, já que o Bowie teve toda uma fase com temas cósmicos, digamos assim.

O Camaleão do Rock chegou a desenvolver uma espécie de persona – um personagem – a quem batizou de Ziggy Stardust, por conta dessa fase sobre a temática do espaço sideral.

E eu devo ao Nenhum de Nós o fato de ter conhecido essa melodia e estar relembrando a minha “viagem particular” naqueles longínquos, porém incríveis, anos 80.

 

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